sábado, 7 de março de 2015

É preciso lembrar da parte ruim.

Não que eu precise de muito esforço pra saber o porquê eu quero ir embora do Brasil. A velocidade com que eu ando na rua agarrada na minha bolsa, já é um motivo e tanto...

Não gosto muito de comparar Holanda com São Paulo. É injusto. E, acredite ou não, tenho “amigos” que falariam:

- Se tá tão ruim aqui, volta pra lá! O que tá fazendo aqui?

Acreditem, “amigos”. Não é uma questão de escolha. Não é como se mudar de país fosse fácil assim. Se fosse, já teria o feito.

Um ano e três meses que voltei para o Brasil e, agora é certo: nunca irei me acostumar novamente. É difícil dar um passo pra frente e quatro pra trás.

Agora que está tudo – quase – pronto pra ir embora mais uma vez, estou aqui listando meus próprios motivos para ficar bem do outro lado do oceano novamente.

Eu adoro meu trabalho, minha família, meus amigos e tudo o que vou deixar pra trás mais uma vez. Mas, mas, mas... Tudo o que vivo no Brasil é cercado por um “mas”.

Eu adoro meu trabalho e a confiança que meu chefe tem em mim. Ele jogou 300 tijolos nas costas de uma menina despreparada e me ensinou a segurá-los. Mas eu não consigo chegar feliz em um lugar quando passei duas horas num trânsito no caminho. Não consigo ficar feliz na hora de ir embora sabendo que as mesmas duas horas me esperam (ou três, ou quatro. As pessoas adoram fazer passeatas na Av. Interlagos e isso já impossibilitou a chegada ao trabalho algumas vezes.)

Mas não só o transito. No mundo coorporativo você tem que lidar com pessoas desleais. Infelizmente a grande maioria é assim. Antes fosse um em um milhão. Um dia alguém me fala que errou (e eu, não por ser coordenadora dessa equipe, mas por ser humana) falo “tudo bem, acontece. Vamos consertar o erro e ir em frente”. No outro dia, essa mesma pessoa que você acalmou em um momento de pânico te aponta o dedo e faz com que você se sinta mal. Não “mal” por algum erro. Mal por ver que no mundo ainda existe gente assim.

Sinto falta de gente humana. Gente que torce pelo sucesso dos outros e não que torcem para os ver cair. Sinto falta de ajuda. De “dar as mãos” quando for enfrentar algo novo. Ou velho.

Depois que voltei de 15 meses na Europa, já ouvi algumas vezes algo como “você se virou sozinha 15 meses em um lugar onde nem falavam sua língua. Por que mesmo agora você precisa de mim?”

Deixa eu contar pra vocês: ninguém consegue nada sozinho. Se eu tivesse ido pra Holanda e todo mundo tivesse me falado algo do tipo “você mora no Brasil. Holanda pra você vai ser fá-cil!”, eu não teria aguentado um mês.

No Brasil as pessoas são sim individualistas. É um tal de o mundo girar em volta do próprio umbigo. Um tal de querer sempre tirar vantagem de tudo...

Vivo em um lugar onde preciso pensar o quanto estou disposta a correr riscos antes de sair de casa. Será que é seguro colocar um skate de R$300 nas costas, pegar um ônibus e ir até ao parque se divertir? Será que a diversão não vai se tornar um pesadelo? Não só por “ser assaltada” de fato. O medo que eu vou sentir no trajeto inteiro já me paralisa. Na Holanda, eu voltava de bicicleta a meia noite da casa da minha melhor amiga, com um skate na garupa. Observando a beleza da cidade e ouvindo músicas.

Tenho saudade da calmaria. Saudade de me sentir segura. Saudade de sentir orgulho do que eu faço. De ficar feliz com o orgulho que as outras pessoas sentem de mim (as pessoas adoram falar que tem um parente/amigo morando na Europa).

Apesar de saber que eu vou sentir saudade daqui também, vai ser uma saudade mais fácil de lidar. Minha saudade vai ser das pessoas e pessoas podem ir pra lá assim como eu posso vir pra cá nas férias ou em feriados prolongados. As relações vão voltar a ser fortes. Na maior parte das vezes, nós nos amamos mais quando não precisamos conviver.




São Paulo - Março de 2015