Não que eu precise de muito esforço pra saber o porquê eu
quero ir embora do Brasil. A velocidade com que eu ando na rua agarrada na
minha bolsa, já é um motivo e tanto...
Não gosto muito de comparar Holanda com São Paulo. É
injusto. E, acredite ou não, tenho “amigos” que falariam:
- Se tá tão ruim aqui, volta pra lá! O que tá fazendo aqui?
Acreditem, “amigos”. Não é uma questão de escolha. Não é
como se mudar de país fosse fácil assim. Se fosse, já teria o feito.
Um ano e três meses que voltei para o Brasil e, agora é
certo: nunca irei me acostumar novamente. É difícil dar um passo pra frente e
quatro pra trás.
Agora que está tudo – quase – pronto pra ir embora mais uma
vez, estou aqui listando meus próprios motivos para ficar bem do outro lado do
oceano novamente.
Eu adoro meu trabalho, minha família, meus amigos e tudo o
que vou deixar pra trás mais uma vez. Mas, mas, mas... Tudo o que vivo no
Brasil é cercado por um “mas”.
Eu adoro meu trabalho e a confiança que meu chefe tem em
mim. Ele jogou 300 tijolos nas costas de uma menina despreparada e me ensinou a
segurá-los. Mas eu não consigo chegar feliz em um lugar quando passei duas
horas num trânsito no caminho. Não consigo ficar feliz na hora de ir embora
sabendo que as mesmas duas horas me esperam (ou três, ou quatro. As pessoas
adoram fazer passeatas na Av. Interlagos e isso já impossibilitou a chegada ao
trabalho algumas vezes.)
Mas não só o transito. No mundo coorporativo você tem que
lidar com pessoas desleais. Infelizmente a grande maioria é assim. Antes fosse
um em um milhão. Um dia alguém me fala que errou (e eu, não por ser
coordenadora dessa equipe, mas por ser humana) falo “tudo bem, acontece. Vamos
consertar o erro e ir em frente”. No outro dia, essa mesma pessoa que você
acalmou em um momento de pânico te aponta o dedo e faz com que você se sinta
mal. Não “mal” por algum erro. Mal por ver que no mundo ainda existe gente
assim.
Sinto falta de gente humana. Gente que torce pelo sucesso dos outros e não que torcem para os ver cair. Sinto falta de ajuda. De “dar as mãos”
quando for enfrentar algo novo. Ou velho.
Depois que voltei de 15 meses na Europa, já ouvi algumas
vezes algo como “você se virou sozinha 15 meses em um lugar onde nem falavam
sua língua. Por que mesmo agora você precisa de mim?”
Deixa eu contar pra vocês: ninguém consegue nada
sozinho. Se eu tivesse ido pra Holanda e todo mundo tivesse me falado algo do
tipo “você mora no Brasil. Holanda pra você vai ser fá-cil!”, eu não teria
aguentado um mês.
No Brasil as pessoas são sim individualistas. É um tal de o
mundo girar em volta do próprio umbigo. Um tal de querer sempre tirar vantagem
de tudo...
Vivo em um lugar onde preciso pensar o quanto estou disposta
a correr riscos antes de sair de casa. Será que é seguro colocar um skate de
R$300 nas costas, pegar um ônibus e ir até ao parque se divertir? Será que a
diversão não vai se tornar um pesadelo? Não só por “ser assaltada” de fato. O
medo que eu vou sentir no trajeto inteiro já me paralisa. Na Holanda, eu
voltava de bicicleta a meia noite da casa da minha melhor amiga, com um skate
na garupa. Observando a beleza da cidade e ouvindo músicas.
Tenho saudade da calmaria. Saudade de me sentir segura.
Saudade de sentir orgulho do que eu faço. De ficar feliz com o orgulho que as
outras pessoas sentem de mim (as pessoas adoram falar que tem um parente/amigo
morando na Europa).
Apesar de saber que eu vou sentir saudade daqui também, vai
ser uma saudade mais fácil de lidar. Minha saudade vai ser das pessoas e
pessoas podem ir pra lá assim como eu posso vir pra cá nas férias ou em
feriados prolongados. As relações vão voltar a ser fortes. Na maior parte das
vezes, nós nos amamos mais quando não precisamos conviver.
São Paulo - Março de 2015
