segunda-feira, 21 de outubro de 2013

46!

Desde que a Deh foi embora, as coisas do lado de cá mudaram um tanto. Agora eu sei que a próxima a partir sou eu e isso é um pouco aterrorizante demais. Mas eu sou aquela pessoa que nunca foi bem em matemática, então para todos que perguntavam, respondia que ainda tenho dois meses por aqui. Eis que hoje me dei conta que não tenho.

Bateu um desespero tremendo quando eu vi que agora me restam exatos 46 dias. Peguei minha lista de lugares que faltam conhecer e fiz um plano de quando ir em cada lugar. Peguei a lista de presentes que resta comprar, coloquei no bolso e saí pelas ruas da cidade comprando presentes, como se eu estivesse partindo amanhã e não tivesse mais tempo pra fazer isso depois. Tenho confirmado presença em todos os eventos que deixei de ir ano passado, porque eu sei que não existirá um "ano que vem" pra eu me fazer presente.

Me peguei também correndo atrás da faculdade e decidindo qual vai ser a nova cama do meu novo quarto paulistano. Coloquei meus amigos na parede e fiz todo mundo decidir onde vamos passar o ano novo. Marquei a data pra viajar até Curitiba e tenho pesquisado passagens pra Goiânia, como se eu estivesse indo amanhã ou depois...

Eu já tenho visitado Amsterdam com uma dor no coração e uma vontade de ficar por lá para sempre. Fico olhando aquelas casinhas esquisitas e pensando o quanto vão fazer falta em pouquíssimo tempo. Quando sento no Homomonument, não tenho mais vontade de levantar e parece que nunca canso de tirar foto da mesma estátua da Anne Frank.

Esses dias voltando pra casa, o irmão do meu host me perguntou o que eu tinha ido fazer em Amsterdam. Expliquei e, no meio da explicação ele me cortou e perguntou:

- O que você tanto vê em Amsterdam? Você provavelmente já foi pra lá mais vezes que eu. E eu sou holandês!

Me vieram mil respostas na cabeça de todas as coisas boas que sinto quando ando por Amsterdam. Queria explicar pra ele o que é andar na Dam Square e ver o "Ross" tocando gaita de foles e rir como uma criança disso. Queria ter falado o quão diferente as casinhas-tortas são das casas comuns que temos no Brasil. Queria ter dito que os canais de Amsterdam são BEM diferentes dos rios que temos em São Paulo. Queria contar pra ele o quanto é lindo ver uma pessoa esquisita, achá-la esquisita e notar que só eu estou achando isso, porque pra todo o resto, o esquisito é normal. Queria falar pra ele que dá uma coisa boa no coração ver um casal de homens de mãos dadas e saber que ninguém vai espancá-los a qualquer momento. Também queria dizer que não existe situação que me deixe mais em paz que sentar no homomonument e ler um livro qualquer, rodeada de pessoas de todas as partes do mundo.

Passaram essas e muito mais coisas na cabeça quando ele me perguntou com desdém o que eu tanto vejo em Amsterdam. Ao contrário disso, respondi tentando resumir isso tudo em uma frase para um holandês um tanto quanto não-patriota, dizendo que a cidade é encantadora e é uma das poucas coisas que consegue me deixar "breathless".

Eu costumava contar quantos meses de Holanda eu tenho. Agora eu conto quantos dias me faltam pra ir embora. Com um pouco de sorte, dentro de algum tempo contarei quantos dias faltam para eu voltar pra cá. Nem que seja pra passar, dizer um "hoi, ik mis je" e tirar uma nova foto em frente a Centraal Station. Ninguém me garante que eu ou ela continuaremos iguais.


Amsterdam - Outubro de 2013