quarta-feira, 13 de março de 2013

Meu sonho era morar sozinha...

Quem sabe um pouco do meu passado no Brasil, sabe também que eu era um tanto quanto cigana. Eu morei com meu pai, minha mãe e irmã, minha avó, meus padrinhos, prima, tia, etc...cada ano em um lugar diferente.

Apesar de eu gostar e de ter boas lembranças de cada lugar que morei, eu sempre desejei morar sozinha. Ter meu próprio apartamento e ligar música alta quando eu quisesse. Sair dançando pela casa, andar só de calcinha, assaltar a geladeira de madrugada sem me preocupar com o barulho que eu poderia causar pra qualquer outra pessoa. Eu só conseguia enxergar o lado maravilhoso de como seria morar sozinha!

Aqui na Holanda eu moro sozinha. O sonho se tornando realidade, mesmo que esse sonho tenha data para acabar. Parecia perfeito: morar sozinha na Holanda. Eis que o dia "não-é-tão-bom-assim-morar-sozinha" chegou.

Ontem eu passei o dia cuidando - MESMO! - dos meninos. Eu cheguei na casa da Chris de manhã e perguntei, como de costume, se ela estava bem. Ela respondeu:

- Oh, well... Are you ok? Because everybody is sick around here.

Primeira vez em seis meses que ela não me responde com "Yeah, I'm fine". Alguma coisa estava errada.

E era verdade. Os meninos todos doentes, vomitando, ela também vomitou de madrugada e aparentemente, só eu e o Casijn estávamos livres da peste.

Passei o dia agradando os bichinhos. Fazendo carinho nas suas barrigas e dando beijo no pescoço (que era onde o Jaap reclamava de dor), porque o psicológico deles acredita que um simples beijo faz as dores passarem.

Então, o Casijn chegou em casa no fim do dia e contei que o Justus tinha acabado de passar mal de novo. E ele, sempre muito engraçado, me falou: "E você? Nenhum mal estar até agora?". Risos e mais risos, eu estava "bem pra xuxu".

Cheguei em casa feliz e contente, fui tomar um banho e pronto: todo aquele bem estar foi pelo ralo do chuveiro. No começo eu só tinha perdido a fome (o que já não é normal quando se fala em "Letícia", acredite). Depois vieram as náuseas e aos poucos, o inferno tava construído dentro da minha casa.

Horas e horas passando mal SO-ZI-NHA. Foi aí que eu notei que nem é tão bom assim o fato de não dividir a casa com ninguém. A música alta e as visitas à qualquer hora perderam a importância quando eu vi que eu precisava de alguém do meu lado.

Eu relutei em chamar a Chris. Eu sabia que ela tava com três crianças doentes pra cuidar, então não queria ter que incomoda-la. Fui inconveniente e mandei mensagem no grupo do whatsapp para as minhas amigas que moram aqui pertinho. Seria terrível ter que acordar porque uma amiga estava "morrendo"? Seria. Mas a dor era tanta que eu mandei assim mesmo. Mas é claro que era uma da manhã e todas estavam no décimo sono.

Então sofri um pouco mais sozinha. Pensei, passei mal, passei mal, passei mal. Eu não tinha mais forças pra levantar da cama e absolutamente nada parava no meu estomago.

Então, três horas da manhã resolvi ligar pra Chris. Com aquele aperto no coração...eu sabia de toda a agenda dela do dia seguinte e sabia o quão importante era pra ela estar dormindo uma hora dessas. Mas ah, estou morrendo, me desculpa.

Foi a melhor coisa que eu fiz, ela foi realmente uma mãe. Sentou comigo na cama, conversou pra entender o problema primeiro. Depois que contei, ela saiu atrás das coisas que ela achava que me fariam melhorar. Me deu gelo, bolsa de água quente, coca-cola, torrada, limpou meu vômito (sério!), pegou um cobertor e sentou no meu sofá procurando coisas na internet que pudessem me fazer ficar melhor.

Mesmo sem ter o carinho na cabeça que minha mãe teria feito até eu dormir, eu senti que ela cuidou de mim exatamente como minha mãe teria cuidado. Alias, eu só comecei a melhorar depois que ela veio aqui. Pode ser pelas mil tentativas que fizemos ou pode ser pelo simples fato de tê-la aqui comigo, cantando músicas da MTV às quatro horas da manhã. Ter alguém por perto é essencial. Não acredito em alguém que se diz feliz sozinho.

Depois de quase duas horas, ela viu que eu estava quase dormindo e foi embora... Se ela não tinha ainda 100% do meu amor eterno, agora tem. Estrelinhas.

Mas eu contei toda essa história pra poder dizer que aquele sonho de morar sozinha foi pro espaço. Aqui eu moro sozinha mas tenho minha família holandesa na casa da frente. Mas morar sozinha-sozinha mesmo, jamais! A vida já é complicada demais. Ninguém é obrigado a enfrentar tamanhos problemas sem ter uma pessoa do lado. E, acredite: nem uma tomboy como eu, tanto quanto feminista e independente, tem capacidade física e mental para trocar um carinho em plena madrugada por algumas festas em casa no final de semana. Nunquinha!


"Gratidão, apreciação, dar um 'obrigado'. Não interessa em que língua ou que palavras você use, elas significam a mesma coisa. Felicidade. A gente deveria ser feliz. Gratos pelos amigos, pela família. Feliz apenas por estarmos vivos. Quer gostemos disso ou não."

Meredith Grey