Tudo começou quando a Chris me pediu pra ficar com os meninos hoje a noite. Fazia um tanto de tempo que eu não os colocava na cama. Eu passo todos os dias, o dia inteiro junto deles. Faço tu-do: brinco, arrumo pra escola, faço "almoço" (pessoal que mora por aqui vai entender o por quê das aspas), evito brigas, os separo quando as brigas são inevitáveis, e isso tudo com um bebê-grude no pé.
Mas tudo isso não é nada que necessite muita conexão com as crianças, quanto a hora de coloca-los pra dormir. É sempre uma depressão quando coloco essas criaturinhas na cama. Hoje, por exemplo, coloquei os dois pra dormir e sentei longe deles - pra não ter muito contato, pra ser mais rápido. E como eles estavam cansados, achei que ia funcionar.
(Ao lado, Jurrijn e suas janelinhas. Ele tava doente esse dia, por isso a carinha de acabadinho!)
Só achei. Em segundos o Jurrijn me chamou pra coçar as costas dele e, em segundos, ele dormiu. Aí o Jaap fala "agora em mim, Letit".
Pausa:
Eu nunca falei muito do Jaap, na verdade nem sei o por que. Mas o Jaap é encantador. Eu era apaixonada por ele desde quando vi as fotos no application lá no Brasil. Aquele sorriso é a coisa mais gostosa do mundo! Eu lembro quando eu tava no avião vindo pra cá e bateu aquele nervosismo-pré-nova-família, e um dos meus pensamentos foi: "Enfim vou conhecer o Jaap!!!".
Dias atras ele simplesmente parou de me chamar de Letitia. De um segundo para o outro eu virei a Letit! E quando ele solta um: "Please, please, please, Letit!", eu já sei: vou dar tudo o que ele pedir porque eu simplesmente não resisto.
Enfim, voltando. Cocei as costas do Jaap e tentei segurar todo aquele sentimento que tava vindo...mas não deu. Briguei comigo mesma internamente e decidi parar de coçar as costas do menino. Eis que ele, que já estava dormindo, assim que eu tirei minha mão das costas dele, levantou a cabeça e falou "nog meer in Jurrijntje, Letit"* e caiu no travesseiro de novo.
*= "faz mais um pouco no Jurrijnzinho, Letit!"
Me diz se não é pra querer morrer amor?
(Acima, Jaap esquecendo que coluna é uma parte importante do corpo)
Fiquei mais uns 10 minutos só fazendo carinho no Jaap e olhando aquela carinha tão linda... Levantei, virei as costas e me deparei com os brinquedinhos que eu trouxe pra eles de Curitiba. Aí sim que eu não me aguentei. Saí do quarto e fiquei sentada nas escadas pensando o quanto tempo já passou desde que comprei aqueles trenzinhos na feirinha hippie de Curitiba. E o quanto eu estava animada pra vir e o quanto eu não imaginava o tanto que eu ia amar essas crianças...
É tudo muito inesperado. Cada dia aqui é uma surpresa, uma coisa diferente pode acontecer. De repente você está só buscando seu menino na escola e vê uma menina autêntica parada com um bebê no colo, all star rasgado e um L&M quase caindo do bolso, e em três minutos está você, (que no Brasil não puxava assunto com NINGUÉM) falando palavras em inglês que ouviu em algum episódio de Friends e você nem lembrava que as sabia. E a tal holandesa esquisita pode então ser a razão de muita coisa ter dado errado.
No Brasil eu tinha um certo problema (vários, mas vou citar só um agora). Eu programava na minha cabeça todas as coisas que eu pretendia fazer. Digo, eu mirava em alguma pessoa (pra ser meu amigo, pra ir comigo em tal festa de aniversário mês que vem, pra ser meu namorado um dia...) e fazia acontecer. Eu via todas as probabilidades do que podia acontecer se eu fizesse tal coisa. Entende? Nem eu entendo, é meio coisa de gente doida mesmo. Mas, por incrível que pareça, isso funcionava. As pessoas que eu fazia questão de ter comigo, estão até hoje ao meu lado. Mas...que maneira mais chatinha de viver a vida, não?
Na Holanda, desculpa as palavras, eu to pouco me fodendo. Claro que eu me importo com toda e qualquer pessoa que eu conheço aqui. Mas eu aprendi - com muito custo - que as pessoas jamais vão ser aquilo que você espera que elas sejam. Hoje eu dei uma de antiga-lele, me programei inteira e fui antes do horário pra escola buscar os meninos, pra ver se eu encontrava a menina esquisita. Ela não foi trabalhar. Bem feito pra mim! Isso é pra eu parar de ser boba e aceitar que, não programar é viver. Aqui na Holanda eu descobri que o acaso é bem mais divertido que o planejado.
Todas as pessoas que eu conheço que fizeram intercambio antes de mim, me falavam coisas como "bláblá auto conhecimento é maravilhoso e bláblá". De verdade, nunca dei bola. Sempre achei firula! Pensava que, ok, deve ser maravilhoso viajar, conhecer pessoas e lugares diferentes. Mas se auto-conhecer só porque ta a alguns muitos quilômetros longe de casa, é exagerar demais.
Mas não. Você viaja, muitas coisas acontecem, você aprende, você cresce, você se revolta com seu antigo eu, você muda - não só de país, você muda internamente. Você muda de Letícia pra Letitia. E, quem sabe, acaba virando alguém que você nunca imaginou ser... a Letit!
Bussum - Fevereiro 2013
