Eu, provavelmente, devia ser a pessoa mais desanimada do
mundo quando estava fazendo as malas pra ir pra Espanha. Não é exagero. A cada
roupa que eu colocava, lembrava e remoía na minha cabeça que eu iria perder o casamento
de uma das melhores amigas que fiz na Holanda por conta de uma estúpida viagem
com minha família holandesa, da qual eu tive oportunidade de falar que não
queria ir. Mas não falei. Então sim, estava lá arrumando minhas malas, forçada
pelo tempo a cumprir tal missão.
Dar tchau pra Fabi e pra Talita, enquanto a Fabi se arrumava
pra casar (sim, aquele casamento que eu estava prestes a perder!) doeu mais do
que eu imaginava que doeria. Chorei, cheguei chorando em casa e não tinha jeito
nenhum de eu conseguir tirar minha cara de desânimo em todo o trajeto
casa-aeroporto.
(Na foto acima, elas me abraçaram mesmo eu não estando presente - como você pode reparar!)
(Na foto acima, elas me abraçaram mesmo eu não estando presente - como você pode reparar!)
Teve algum momento enquanto a gente esperava nosso voo que a
Chris me perguntou se eu tava bem. E, de verdade, acho que eu não aguentava
mais ouvir ela me perguntando isso. Finalmente, notei o quão egoísta eu tava sendo
com minha própria família. Eles estavam ali, se esforçando pra me fazer sorrir
e eu tinha vestido uma cara de luto eterno. Quando notei que eles não tinham
culpa nenhuma por eu estar perdendo despedidas e casamento, passei a me forçar
a aceitar o que perdi e aproveitar a tal viagem.
Chegamos e já era noite, não deu tempo de ter muita ideia de onde estávamos. Só sabia pensar o quanto a vista do meu quarto devia ser linda durante o dia e calcular quantas horas eu passaria esparramada na banheira que eu tinha só pra mim. Definitivamente, a tristeza já estava de lado.
As crianças todas dormiam e eu fui jantar com a Chris e o Casijn. E foi assim quase todas as noites: as crianças dormiam, jantávamos nós três juntos e conversávamos até de madrugada. Acho que em 11 meses eu nunca falei tanto em inglês quanto essas duas semanas. Falei, falei, falamos. Falamos de tudo o que ainda era preciso, tudo o que ficou mal entendido ou subentendido, das tristezas já curadas e das coisas boas que estão por vir. A naturalidade que eles falam sobre gays continua me impressionando e encantando. No meio de uma conversa aleatória, o Casijn falou “Sabe Leticia, nós temos três filhos. Claro que um deles é gay! A probabilidade é muito grande... A gente acha que é o Jaap.” A partir desse dia, tudo o que o Jaap fazia de suspeito, eles apontavam e falavam “Tá vendo? Tô dizendo...”. Aliás, a Chris falou que ele inventar o apelido “Letit” pra mim também faz parte do “gene gay” que existe dentro dele. Risos! Mesmo com a falta de internet, falta de noticias, falta de amigos e falta de um bom português no dia a dia, nem tinha como ficar triste na Espanha.
Viajar com alguém normalmente causa uma proximidade muito
grande (eu digo normalmente porque já vivi o oposto) e essa viagem nos causou
muita proximidade. Eu já era muito próxima da Chris depois de ter passado três
meses só com ela, mas nessa viagem eu descobri que o Casijn não é só o
figurante gente boa: ele é MUITO gente boa. Quando ninguém mais aguentava as
crianças, ele vinha e contava uma piada, eu morria de rir e passava todo e
qualquer estresse. Certo dia as crianças dos vizinhos estavam gritando e ele
virou pra mim e falou “Não tá dando mais. Vou lá no vizinho reclamar do barulho
dessas crianças. Os nossos são tão silenciosos, por quê os deles não podem ser
também?”. As nossas crianças eram provavelmente as crianças que mais faziam barulho
na Espanha inteira, e por isso foi tão engraçado! Ou quando a Chris caiu da
escada de madrugada e eu perguntei pra ele no dia seguinte se ele foi ajudar, e
ele respondeu prontamente: “Course not. I was sleeping!”.
Ele não é só engraçado como também tem um coração gigante e
uma vontade imensa de ajudar. Me perguntava mil vezes o que eu queria, se tava
bom desse jeito, dizia que eu podia mudar todos os planos deles se eu quisesse,
fazia buscas das minhas passagens pra Itália no celular e pensava em mil jeitos
pra eu conseguir pagar mais barato. Ele tentava de todas as formas me fazer
sentir bem. Como a gente nem se vê muito na Holanda, pra mim isso foi um fato muito
novo.
Teve também a noite que eu fiquei sozinha com as crianças.
Eu sempre tenho certo receio quando a Chris pede pra eu ficar com os três à
noite. Sempre acho que eles vão fazer escândalo pra dormir, que vão brigar, que
não vão me obedecer e que a noite vai ser infernal. Mas eles sempre me
surpreendem. Eram 9 da noite, o bebê dormia e eu tava sentada na varanda com os
dois mais velhos. A gente tava tendo aquela conversa maluca que é meio
holandês, meio português. Como eles entendem bastante o português, eu não
preciso ficar me preocupando em aprender esse tal idioma. Acontece que às vezes
a gente aprende sem nem querer. E no meio da conversa eu me peguei pensando o
quão inusitado era a cena: uma brasileira conversando com dois mini-holandeses
em holandês na Espanha. Mas o “momento” da noite não foi nem eu ter notado o
quanto aprendi holandês. O momento foi quando eles me perguntaram quando eu vou
voltar pro Brasil. O Jurrijn sempre pergunta, sempre se preocupa e só fica
aliviado quando a Chris diz que falta bastante. Mas foi a primeira vez que o
Jaap me perguntou e eu fiquei um pouco espantada. Falei que era perto do Natal
e que ainda tinha bastante tempo. Ele me perguntou se eu vou estar aqui no
aniversário dele e doeu TANTO, mas TANTO dizer que não. Ele me olhou com uma
cara de confuso e eu mudei de assunto no mesmo segundo, porque se já é difícil
pra mim, faço ideia pra uma criança de 4 anos...
O fato é que eu bloqueei meu cérebro de pensar na minha vida pós Holanda. Não quero. Não quero sofrer, me dói só de pensar, só de imaginar. A Chris já me perguntou incansáveis vezes o que vou fazer quando voltar e agora o Casijn também pergunta. Eu respondo que prefiro não pensar, na falsa tentativa de fazer doer menos.
A Espanha, diferente de todos os outros países que visitei, me fez sentir em casa por ter tanta coisa parecida com o Brasil. Digo coisas pequenas mesmo, das quais não se vê na Holanda como, por exemplo, quando estava andando na rua e vi vendedores ambulantes com uma toalha no chão e alguns óculos de sol em cima dela, no maior estilo 25 de Março, ou o supermercado que a Chris fez a maior propaganda, dizendo que era gigante e nada comparado ao Albert Heijn holandês e que os meninos ficavam loucos quando iam lá ver os peixes mortos estendidos no gelo, e quando entro, PÁH: era o Carrefour. Tirei toda a alegria dela quando falei “ah, a gente tem Carrefour no Brasil também...”. E provavelmente o Carrefour foi o lugar que mais me senti em casa. Pensava que a qualquer hora ia ver minha avó dando milhares de voltas no mercado, quando, no fundo, ela só queria comprar pão.
É engraçado isso. Eu não consigo pensar na minha volta pro Brasil, mas ao mesmo tempo tenho saudade dessas pequenas coisas: de pegar o carro e levar a vó no mercado com meu pai no banco ao lado fazendo mil piadas, de tomar café na casa da tia, de ir pro James com o Mumu, dormir na casa da Lys e rir a noite inteira das coisas mais idiotas que possam existir ou de encontrar acidentalmente mais um primo nas noites curitibanas. Sinto saudade de assistir Friends com minha irmã e rir sempre das mesmas piadas ou de acordar sábado cedo com minha mãe pulando na cama dizendo que sábado é o dia das cócegas (risos, essa é velha!). Sinto saudade de muita coisa e, como boa libriana, vou sentir saudade do lado de cá também. Nada é certo o suficiente quando você nasceu um pouco esquisita demais pra uma vida comum.
Sei que fugi muito do assunto Espanha, mas é só que não era
uma viagem muito “minha” pra eu ter tanta vontade de escrever sobre ela. Mas,
se querem mesmo saber, Barcelona é um charme e é um tanto quanto esquisita. E isso
é tudo culpa do esquisito do Gaudí. Foi ele que fez a
cidade comum virar absurdamente encantadora. Já diria minha grande amiga
Déborah: encantada!
Espanha - Julho de 2013
