Pela primeira vez em quase 8 meses, eu perdi a hora de ir busca-los na escola. Quer dizer, eu não perdi. Mas eu estava muito distraída com o facebook e, quando notei, faltava um ou dois minutos para o horário da saída.
A ordem era esperar a mãe da Amber chegar, por que ela nos acompanharia até em casa. Enquanto isso, TODAS as crianças da sala vieram dar beijos e abraços nela, repetindo incansavelmente "Doei lief Amber".*
Chegamos em casa e, por curiosidade, fui perguntar pra Chris, qual é o tal problema que ela tem nas perninhas. Foi aí que meu sorriso passou a ser uma boca entre-aberta e dois olhos cheios de lágrimas.
A Amber nasceu com um problema (ela não soube explicar direito o que era). Tudo o que a Chris sabia era que a expectativa de vida dela, dada pelos médicos, é de 23 anos.
"Ela não passará dos 23 anos, Leticia. O problema que ela tem hoje nas pernas, tende a piorar à cada 6 meses e, nas contas dos médicos, aos 23 anos ela não vai mais ter força pra continuar."
Pra que, né? Pensa em alguém que está com um frio na barriga constante, desde esse momento...
Depois disso, fui colocar meu holandês em prática e conversar com ela. Eu NUNCA fui tão fofa com uma criança como fui com essa menina (e olha que tenho dois irmãos brasileiros e três holandeses!)
Eu tenho 23 anos. Eu tenho a idade que talvez a Amber nem alcance. Sei que pode parecer clichê, mas por que diabos não aproveitamos cada momento, cada amor, cada alegria - e até as tristezas - como se amanhã fossemos morrer? A Amber nasceu com a certeza de que tal idade não alcançará. O que faz de nós pensarmos que o amanhã é sinônimo de certeza?
Amber é talvez a menina mais linda que já conheci. Quatro anos, tão pequena, um tanto quanto quieta mas que abre a boca para reclamar quando um bebê vem mexer no seu andador. Abre a boca também, para enfeitar o rosto com o sorriso mais lindo, quando uma estranha de 23 anos que ela acabou de conhecer, fala: "Lief Amber."
*Tchau, Amber fofa!
Holanda - Abril 2013