Sutilmente ou não, quando estamos no lugar que não
deveríamos estar, o universo sempre dá um jeito de nos fazer voltar pra
realidade. E, nessa frase, eu não estou falando sobre Roma. Acontece que, você
pode tentar enganar todo mundo, mas você nunca consegue enganar a si mesmo. Eu
consegui! Por um ou dois meses, no meio de muitas tentativas frustradas.
Mas estou aqui pra falar de coisas boas e nada melhor que
falar sobre Roma. Que lugar ma-ra-vi-lho-so! É cheinho de coisas lindas e
milimetricamente detalhadas.
No dia que cheguei, eu senti um alivio TÃO grande ao ouvir
as pessoas falando italiano... Não sei nem explicar direito, mas com certeza a
palavra está certa: alivio.
Eu gosto muito de morar na Holanda, mas ouvir as pessoas se
comunicarem em holandês todo-santo-dia é terrível. Primeiro porque eu entendo uma palavra em 50.
Segundo porque, de verdade, é uma língua muito feia. Eles têm palavras feias e
que, juntando com as outras, nunca parecem formar uma frase. Então, quando
cheguei na Itália, ouvir uma língua que eu consigo entender (um pouco, mas
consigo) e tão próxima do português, foi um alivio tremendo pros ouvidos.
É um lugar que, sem sombras de dúvida, vou voltar. Pode ser próximo mês ou daqui a cinco anos, mas estarei lá.
Quando eu comecei a escrever esse blog, ali embaixo do "Tudo que é importante demora", estava escrito "Um intercambio inspirado em Liz Gilbert".
(Liz Gilbert é a escritora de Comer Rezar Amar e quem escreveu a frase título desse blog.)
Eu me vejo muito nela. Disse "inspirado" porque eu realmente saí do Brasil com a mesma ideia que ela saiu dos Estados Unidos:
"Se você for corajoso o bastante pra deixar tudo pra trás que é
familiar e cômodo,que pode ser qualquer coisa, desde a sua casa até a amargura
de antigos ressentimentos e planejar uma viagem de busca verdadeira, tanto
externa quanto interna, e se estiver realmente disposto a considerar tudo o que
acontecer com você nessa viagem como uma pista e se você aceitar todos que
encontrar ao longo desse caminho como professores e se estiver preparado, acima
de tudo, a enfrentar e perdoar algumas realidades bem difíceis sobre si mesmo,a
verdade não será negada a você."
Eu me vejo uma pessoa corajosa hoje em dia. Acho que toda menina que sai de um lugar que te é familiar e confortável, em busca de qualquer coisa - a minha busca sempre foi eu mesma - vira uma pessoa corajosa. E não somente pela coragem de sair do seu país, mas a coragem pra se manter fora dele. Viver tudo o que a gente vive, chorar o que a gente chora de saudade, e se manter firme para o próximo dia... é coragem!
Ter a Liz como inspiração foi a melhor coisa que eu pude decidir antes de vir pra cá. Vim decidida a enfrentar qualquer verdade sobre mim mesma que eu, por instinto, costumava esconder no Brasil. Precisava sair pra "pegar um ar", mesmo que essa janela fosse um pouco longe de casa.
Pra quem não leu o livro "Comer Rezar Amar" ou assistiu o filme, o primeiro destino da Liz é Roma. Então Roma era uma cidade que eu precisava conhecer pra ver se lá eu achava algo que eu estava procurando. Mesmo que essa procura fosse interna.
Boa parte das pessoas que lêem esse blog não tem as mesmas crenças que eu. Então desculpe você, caro leitor, que vai terminar esse texto e dizer que eu sou doida e que é tudo coisa da minha cabeça. Mas, mesmo assim, vou contar o meu episódio na Fontana di Trevi.
Eu tava muito insatisfeita com tudo: com meu relacionamento, comigo mesma, com o fato de eu não saber lidar comigo mesma, não saber aceitar uma pessoa que goste de mim e ser feliz e pronto. Então eu fui nessa fonte e, tirei um tempo pra pensar. Fiquei do jeito que estou nessa foto aí ao lado, por pelo menos meia hora. Eu precisava pedir uma coisa importante e que valesse cada minuto posterior, caso o pedido fosse realizado. "Ser feliz" parecia muito generalizado pra mim. Porque eu sou feliz, oras! Eu só não estou/estava me sentindo bem o suficiente pra manter minha felicidade por muito tempo.
Então depois de muita reflexão, virei-me de costas pra fonte e joguei a moedinha, conforme manda a lei dos loucos que acreditam (pertenço à esse grupo). Meu pedido foi simples: ser feliz comigo mesma. Eu confesso ter uma grande dificuldade com isso. Sou ótima em fazer os outros felizes. Meus amigos, minha família, a vizinha que acabei de conhecer...todos! Faço questão de fazer qualquer gesto que possa ajudar tal pessoa a se sentir melhor. Mas quando o negócio é comigo mesma...aí complica! E, de verdade? Estou tão cansada de me cobrar o tempo inteiro, de não querer decepcionar as pessoas, de tentar e tentar e nunca chegar no resultado que eu esperava... Então, Fontana di Trevi foi meu pedido de paz à mim mesma. Eu não aguentava mais.
Saindo de lá, fomos num parque "não turístico". Me desliguei do universo. Sentei, andei, senti saudade, senti frio na barriga, senti, senti, senti. Eu senti tantas coisas em um tão pequeno cenário. Eu não queria mais sair de lá, eu notava que algo bom estava acontecendo mesmo ali, sozinha e embaixo de chuva.
Eu me perguntei várias coisas e, na maioria delas, eu não tinha resposta.
Eu ouvi um português fino e suave se aproximando, ao som de vozes femininas e mansas e foi tão gostoso. Sinto tanta falta de entender o que acontece ao meu redor! Não de ouvir a conversa dos outros em si, mas entender o por que de tanta situação que acontece do meu lado. Então olhei pra essas duas brasileiras, mãe e filha, tentando arduamente tirar uma foto das duas, esticando o braço o máximo que conseguiam. Foi a deixa pra eu ir conversar com elas! Me ofereci pra bater foto e elas ficaram numa alegria tão grande em ver mais uma brasileira no meio de tanto gringo. E foi ótimo pra mim também. Talvez tenha sido a melhor conversa na viagem inteira - acreditem!
Depois disso, a cada passo que eu dava, eu me sentia melhor - comigo mesma. Me sentia preparada pra deixar de lado o que eu considerava um apoio que eu tinha aqui na Holanda. Eu ainda não obtive a resposta de "por que não tentar sozinha?", mas como essa pergunta me veio à cabeça, foi uma dica pra eu decidir arriscar. E, vou dizer pra vocês: sozinha as vezes é melhor que acompanhada pela pessoa errada. De verdade.
Depois dessa viagem cheinha de descobertas, o que eu posso dizer é: não foi no Vaticano que eu encontrei minhas respostas.
Vaticano é lindo e tem muita história por trás de cada detalhe, mas eu como católica-não-praticante (e extremamente contra a opinião que o catolicismo tem) só consegui enxergar o Vaticano como um lugar pra rezar um pouco. Ou talvez apenas como um monumento histórico.
Depois de tanta emoção em um só lugar, a Cidade Eterna virou pra mim, onde eu encontrei muita paz que estava perdida.
Roma - Janeiro de 2013