Chamo o Justus de anjinho. Olha essa carinha, gente! Não tem como não se apaixonar.
Ok, confesso que quando ele ta mala, chamo ele de "malinha", "sarninha", "chorão" e aí por diante. Mas em uma visão geral, ele é meu anjinho.
Toda a au pair fala que essa experiência que vivemos aqui é para esquecer a ideia de ter filho. Se eu tivesse só os meus mais velhos, acho que concordaria. Mas é a Chris descer as escadas de manhã com o pequeno no colo, ele abrir um sorriso e se jogar nos meus braços, que eu rezo pra ter um filho desse jeitinho. Coisa mais linda. Sorriso mais lindo.
Hoje fomos no parquinho e tiramos mil fotos. Vou postar algumas aqui. Ela não sorri e não colabora em todas, mas... for the memories.
Alias, for the memories, o Jurrijn continua me deixando louca. E eu digo "for the memories" porque preciso lembrar disso quando eu voltar pro Brasil e ficar com aquele sentimento bipolar libriano "oh, eu deveria ter ficado na Holanda". O Justus é lindo, o Jaap é uma gracinha - preciso fazer um post das palhaçadas desse menino - mas o Jurrijn... Eu realmente acho que ele não foi com minha cara ou sei lá... Sei que eu toda paciente - ok, não sou eu. Mas sou eu tentando ser paciente ao menos - vou até ele, beijo, abraço (como eu faço com os outros), chamo de "amor", pergunto se a comida ta boa, o que ele quer levar na lancheira, faço o pão tost com pindakaes e ketchup (sério... que nojo!), e o moleque continua a me tratar aos chutes.
Um dia vou descobrir o que passa na cabeça desse menino. Ou não também, tanto faz. Potato, potato, whatever. Faltam só dez meses mesmo...
Semana passada quando eu levei quatro crianças pra brincar no Spell Time e perdi um de vista (sim, gente, isso acontece! Aqui são todos loiros do cabelo tigela, falando holandês e de voz parecida. Se misturar com outras crianças, é difícil achar os meus de volta.). Mas enfim, perdi um de vista e pensei "Puta merda! Esse menino ta sob meus cuidados. Imagina perde-lo?". E quando eu vi que QUATRO crianças que nem a minha língua falam estavam aos meus cuidados, foi quando eu comecei a me sentir mais madura. Demorou, viu? 23 anos passaram até eu sentir isso, mas o dia chegou.
Daí em diante a ficha que faltava, caiu. Que merda isso. Quero crescer não. Quedelhe minha mãe pra coçar minhas costas e me ouvir chorar todo domingo à noite? Passou... e só aqui na Holanda que eu percebi isso.
Precisou eu mudar de país pra perceber que eu cresci, que agora tenho responsabilidades e deveres. E não é dever de casa daqueles que facilmente você engana a professora e deixa para o dia seguinte. É aqui e agora. É fazer três crianças comerem ao mesmo tempo, fazer os três colocarem agasalhos - e mante-los desse jeito (sempre tem um que quer tirar, é incrível). E se chega em casa sem suéter, a "mommy" fala "Leticia, they have to use it", como se eu realmente não soubesse e como se eu não tivesse passado o caminho inteiro tentando fazer as crianças usarem o maldito suéter.
A lição de casa agora é manter objetos pequenos longe de um bebê que engatinha por tudo, e esse bebê tem dois irmãos que amam deixar o lego em todo canto da casa. A lição de casa agora é cuidar de três meninos como se fossem meus filhos, lidar com saudade do Brasil, lidar com o frio extremo (não é fácil, nem mesmo para uma Curitibana), lidar com cara feia, com criança mal educada, com novas amigas que não são como as do Brasil que estão lá para você quando você precisa. Eu sinto que cresci 23 anos em dois meses, porque tudo que eu jogava pra depois no Brasil, eu to tendo que fazer agora aqui. Não agora, mas já! "Eles já escovaram os dentes?", "Eles já tomaram tudo? Eles tem que tomar tudo, Leticia!", "Eles já tomaram a vitamina hoje?". É muito já!
Esse não é um post pra reclamar. Não mesmo, sério. Eu to amando ter que crescer. Agora eu sinto que minha mãe pode enfim ter orgulho de mim. Nem eu mesma tinha antes. Agora eu tenho e acredito que minha mãe também.
Agora, depois de 23 anos, eu percebi que quando você quer alguma coisa de verdade, você consegue. A Holanda já tinha dado tantas vezes errado, mas eu queria tanto que cá estou. E é bom perceber isso enquanto você ainda tem tempo de querer mais coisas. Eu to ha dois meses aqui e pensando cuidadosamente no que fazer quando voltar pro Brasil, porque dessa vez eu quero acertar. Chega de tentativas frustradas. É horrível ter que ouvir sempre "não vai desistir disso de novo, né Leticia?". Agora é só tiro certeiro! :)
Justus and Leticia
Spell Time - 16 October 2012




